A fragilidade não é pecado


Desde a infância, conheço um homem que vive nas ruas próximas do bairro onde cresci e onde meus avós vivem. Também o vejo quase todos os dias no caminho para o trabalho. Nesses anos, ouvi incontáveis histórias de como ele decidia por Cristo, era acolhido por uma igreja pequena e depois caía no mundo novamente, envolvendo-se com drogas e roubo. É como um ciclo sem fim. Outro dia, meu ônibus parou no sinal e eu o vi sentado no chão quente, na frente de um banco, a pele já suada e queimada. No colo, uma Bíblia que ele tentava ler enquanto o vento atrapalhava. Depois dali, revi minha vida cristã inteira.

Esse homem não tem nada. Não sabe onde vai dormir, o que vai comer ou sequer tem o que vestir. Ele já caiu tantas vezes que, certamente, nem ele sabe mais contar. E, ainda assim, ele se sente no direito de ser filho; de abrir uma Bíblia no colo e lutar para conhecer mais de Jesus. Tantas vezes o vi conversar com meu pai, contando suas quedas e falando, tão confiante, que Deus o restauraria.

Enquanto isso, tantos de nós que temos casas, empregos e vidas estáveis simplesmente não temos tempo para Jesus. Tantos de nós caímos uma vez e isso basta para nos achamos indignos, e fugimos do Pai para sempre. Somos orgulhosos e não compreendemos o real sentido da dependência. Nos escondemos - como se fosse possível - para não mostrar a Deus as nossas falhas.

Desejei ser mais como aquele homem, tendo uma consciência tão forte do poder de Cristo e da sua paternidade, que o mundo pode lhe derrubar, mas não lhe tomar. Desejei ser como ele, tão capaz de ser frágil, humilde e dependente para ficar de joelhos na frente de Jesus e pedir por mais uma oportunidade. Porque ele não tem para onde voltar mais. Porque, para ele, não existe vida livre e curada sem Jesus. Porque nem a dor, o calor ou a fome pode impedi-lo de ler e adorar.

Imaginei a dor do vício, da luta para ter um único Senhor e percebi que somos todos assim, em menor ou maior escala. Cada um tem, dentro de si, uma luta contra o mundo que tenta nos derrubar. Porém, uns decidem lutar com os próprios punhos. Outros, entregam-se a Jesus acreditando que a redenção será perfeita e rápida, negando a si mesmos o caminho da reconstrução. Mas há ainda aqueles que se entregam conscientes de que a nossa natureza pecadora vai nos confundir, e precisaremos ser frágeis para permitir que Deus nos quebre e remonte com a mentalidade dele. Estes que podem cair, mas não esquecem o caminho de volta para Cristo.

Quero ser como esse homem. Não um reincidente envergonhado, mas um filho consciente da graça e da misericórdia do Pai. Não para que isso nos dê passe livre para errar como quisermos e voltar quando for conveniente, mas para que o orgulho e o perfeccionismo não nos afastem de Deus. Afinal, Ele escolheu amar e capacitar os frágeis que se deixam ser fortalecidos por Ele. Ser frágil e dependente de Deus não nos torna pecadores; nos torna filhos.


Por Mariah Costa

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