A Porta

Atualizado: 11 de Jun de 2019



Todos os dias ela estava lá... Imóvel...


Era muito bonita apesar de fazer parte de um universo nada bonito. Ela não combinava com aquele lugar, parecia que havia sido colocada ali por engano. Era completamente branca, de um branco que não se pode descrever e, apesar de estar ali, naquele lugar tão sujo e bagunçado, nada manchava sua cor, nada alterava o seu padrão. Era imutável... Era uma porta pela qual eu nunca havia passado.


Aquele era o meu mundo. Ele era organizado, do meu jeito, mas era. Não era o mundo dos meus sonhos. Havia ali muitas pessoas, muitas das quais eu não gostava, com as quais eu não me relacionava mais, muitas as quais me magoaram; mas todas faziam parte do meu mundo.


Tornavam o meu mundo muito sem cor, muito triste, solitário apesar de habitado. Não digo que apenas existiam coisas tristes em meu mundo, mas que elas eram grande parte dele. É verdade que, se alguém olhasse meu mundo de fora, o acharia caótico. E, de fato, ele era.


Posso dizer que a única coisa bonita que havia em meu mundo era aquela porta. Nunca entendi por que ela estava lá. Até que, um dia, no meio de todas aquelas angústias e daquele caos em que eu vivia... cheio de altos e baixos... Eu resolvi espiar pela fechadura.


Qual não foi o meu susto. Do lado de fora, em pé, em frente àquela porta havia um homem. Ele estava lá, parado, parecia esperar alguma coisa. Eu fiquei observando, não podia ver muito bem, mas posso dizer que nunca havia visto alguém tão bonito quanto ele. Fiquei observando, quando, de repente, ele viu que eu o observava.


Dei um salto para trás, que vergonha! Eu estava ali há bastante tempo espiando pela fechadura da porta. Enquanto pensava a respeito daquela situação, me dei conta de que ao espiar pela porta não vi o que eu esperava. Sempre imaginei que do outro lado haveria uma linda casa, um mundo completamente diferente do meu e que fizesse jus a beleza da porta. Mas não foi o que eu vi. Eu não vim “um lado de dentro”, eu vi “um lado de fora”.




Eu estava tão confusa. Se não havia uma casa do outro lado da porta, mas um lado de fora; isso significava que a porta era minha, fazia parte do meu mundo de fato.


Mas, como podia ser? Ela não combinava com nada ali, eu nunca abri aquela porta, eu nem se quer me lembro de ter a chave daquela porta. Eu nem sabia que havia um lado de fora do meu mundo. Eu estava tão pensativa... Até que meus pensamentos foram interrompidos pelo som de batidas na porta: Toc toc toc ...


Me encaminhei até a porta, olhei pela fechadura e lá estava ele, olhando por ela também e ele disse: “Oi!”. Eu nem sabia o que responder, mas disse oi também e ele me respondeu:


- Faz um bom tempo que estou aqui do lado de fora, esperando você abrir. – Ele disse isso com um enorme sorriso no rosto – Estou feliz que você, enfim, veio até a porta. Posso entrar?


Eu estava completamente confusa, por que ele estava me esperando? Quem era ele? Era muita coisa acontecendo simplesmente porque eu decidi ir até aquela porta.


- Oi? O que você está fazendo aí?


- Esperando por você! – Disse ele com um enorme sorriso no rosto.


- Por mim? Eu nem sei quem você é!


- Exatamente. Eu vim para que você pudesse me conhecer.


- Como você se chama?


- Amor!


- O quê? Nunca imaginei que você fosse real. Eu procurei você por tanto tempo e em todos os lugares e pessoas onde me disseram que você poderia estar. Mas eu nunca encontrei você e toda essa procura só me trouxe mágoas e dores.


- Eu sempre estive aqui, todos os dias, batendo em sua porta.


Aquela afirmação me trouxe à memória várias vezes em que eu passei pela porta e ouvi alguém bater. Por algumas vezes, eu até imaginei ter ouvido meu nome. Aquele a quem eu sempre procurei estava ali do outro lado da porta.


- Deixe-me entrar.


- Não posso! – Eu fui tomada de um enorme medo e uma enorme vergonha. Como poderia deixá-lo entrar? Primeiro: eu não tinha a chave. Segundo: o meu mundo era um caos.


- Você, apenas você, tem a chave dessa porta para que eu entre. Não precisa ter medo nem vergonha. Se você me deixar entrar, eu posso lançá-los fora. Não importa se seu mundo é um caos, eu posso trazer ordem a tudo isso. Posso te ajudar a liberar todas essas pessoas presas em seu mundo, e toda essa tristeza e insegurança que você sente, eu posso fazê-las acabar.


Como ele podia saber de tudo aquilo? Parecia que eu havia falado em voz alta. Como ele me conhecia tão bem? Apesar disso, eu nunca soube o que era – ou quem era o Amor – ninguém havia de fato me amado, todos apenas me enganaram e me traíram; eu mesmo havia me acostumado a agir da mesma forma.


Eu permaneci em silêncio.


- Por que você pensa que nunca foi amada? – Ele quebrou o silêncio do outro lado da porta – Eu sempre amei você. Mas eu não posso entrar até que você me permita.


Enquanto ele falava, com uma voz firme e, ao mesmo tempo, suave, eu olhava pela fechadura. Eu olhei para suas mãos, havia um buraco na palma de cada uma delas, como se algo as houvesse atravessado; quando olhei para seus pés, vi os mesmos buracos.


- O que são esses buracos em suas mãos e pés?


- Ah! Isso? Bem, isso foi algo que eu tive que fazer para poder chegar até a sua porta para que você pudesse me conhecer.


- Machucaram você?


- Muito. Fui traído, abandonado, ferido...


- Você não podia evitar isso?


- Claro! Eu não precisava passar por nada do que eu passei.


- E por que passou?


- Foi o preço que me cobraram para que eu pudesse vir aqui e você me conhecesse. Passei por tudo isso por você.


Eu estava em choque. Nunca ninguém havia feito nada por mim. Mas ele parecia ter passado por muitas coisas só por me amar. Sem contar todos os anos que ele estava a minha porta, esperando que eu abrisse.


- Eu quero deixar você entrar. Quero conhecer você!


- Então abra.


- Como? Eu não tenho a chave!


- O segredo para abrir essa porta só você tem. Essa porta abre apenas por dentro.


- Onde posso encontrar a chave?


- Em seu bolso. Solte a tristeza, solte o medo.... Desocupe suas mãos, coloque-as no bolso e pegue a chave! Destranque a fechadura...


Naquele momento, houve um enorme estrondo em meu mundo. Quando abri as mãos para soltar tudo o que as ocupava, parecia que o mundo ia desabar, mas que eu não desabaria com ele.


Eu mesma era a chave. Eu apenas precisava escolher. Decidir abrir mão de tudo para que o amor entrasse.


A porta abriu.


Meu coração estava acelerado. Em alguns instantes eu estaria de frente com o Amor.


Quando Ele entrou, meu mundo inteiro se iluminou. Aquilo que era cinza, agora possuía cor. O barulho ensurdecedor do caos em que eu vivia, silenciou. Tudo começou a ir para o seu lugar. Algumas tralhas e lixos desapareceram. Olhei para o meu corpo, onde havia feridas, agora, apenas cicatrizes que não me traziam nenhuma dor.


Ao me ver, o Amor estendeu suas mãos e segurou as minhas. Sentou-se comigo ao chão de pernas cruzadas, como uma criança que se encontra com outra para brincar. Apenas com sua presença, Ele já havia mudado tudo em meu mundo.


Por Isabel Rodrigues

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