Ele vive!



Era chegado o dia. O propósito de toda a sua vida e vinda se resumiriam naquela noite. Aquele era o dia em que o filho, o irmão mais velho de muitos, poderia dizer sim ou não ao sacrifício que lhe havia sido pedido.


O filho, por uma última vez, sentou-se e comeu com seus irmãos. Olhava para cada um deles da mesma forma que o Pai olhava para Ele: cheio de amor. Depois de comer com seus irmãos, havia um lugar onde precisava ir. Nesse lugar ele costumava se encontrar com o Pai. Era um Jardim. Um Jardim que não o deixava esquecer o motivo de ter se feito humanidade.


Naquela noite, o Jardim parecia mais escuro do que de costume, a lua estava sobre ele, mas parecia recusar-se a iluminar aquele momento. Não havia vento, ele também se escondeu. As árvores não se moviam, nem uma folha se quer balançava. Embora estivesse acompanhado, o silêncio naquele lugar era ensurdecedor. O único som que conseguia ouvir eram as aceleradas batidas de seu coração que, naquela noite, expressavam medo como nunca antes.


As oliveiras estavam ali já há muito tempo, mas pareciam saber que, naquela noite, não eram seus frutos que seriam prensados. O azeite que seria extraído naquela noite era daquele que esteve desde o princípio quando foram plantadas, que as viu crescerem, que delas colheu frutos. O azeite que seria produzido naquela noite, jamais seria produzido outra vez, pois sua origem era de um fruto único.


Chamou seus irmãos para estarem com ele naquele momento. Não podia estar só. Teve medo. Se fez humanidade em favor de seus irmãos até o último minuto. Não queria estar só, mas sabia que já o haviam abandonado. Eles dormiam, não conseguiam ficar acordados.


Naqueles instantes, seus sentimentos estavam mais humanos do que em todos os seus outros dias de vida. Seus companheiros eram o medo e a angústia. Um segurava sua mão, e o outro era quem lhe abraçava.


Por três vezes já havia clamado ao Pai. Perguntava-lhe se este era de fato o único caminho, a única maneira. Mas, por três vezes, o Pai se manteve em silêncio. A entrega deveria ser feita e o preço, em favor dos seus irmãos, pago. O Pai não suportava mais ver a agonia de nenhum de seus filhos.


A decisão do filho não fora abalada, pois ele amava ao Pai e agora entendia o amor do Pai por seus irmãos.


De repente, a angústia em seu coração se manifestou em seu corpo. Prostrado com o rosto em terra, suava, não mais apenas água. Suava sangue. Sua entrega já havia começado. O cheiro do sangue em seu corpo se misturava com o aroma do bálsamo que havia sido derramado sobre sua cabeça. Seu corpo estava pronto para ser entregue.


Ouviu-se os sons dos passos. Os passos de seus carrascos que chegavam para levar-lhe ao seu destino final, e os passos de seus amigos que, correndo, fugiam e o abandonavam.


Foi arrancado do Jardim.


Era chegada a hora.


Tudo o que se ouvia era silêncio. Não se podia acreditar. Estava feito: ele havia morrido. Cumprira o propósito para que fora designado. Parecia o fim.


Eu vi descerem seu corpo imóvel, sem vida, manchado de sangue. A cena era tão perturbadora que o terremoto que antes acontecera não me roubou os olhos dele. A terra, a natureza e o céu pareciam não se conformar. Ele estava morto.


Um amigo disse que lhe emprestaria um túmulo para que fosse sepultado. Como emprestar um túmulo para alguém? Será que alguém usaria um tumulo apenas por alguns dias? A morte eterna daria uma pausa para que aquela pessoa devolvesse o túmulo que lhe havia sido emprestado?


Três dias se passaram. Quão grande susto! A pedra que fechava seu sepulcro não estava lá! Havia sido removida! Meu coração entrou em desespero, quem poderia tê-lo retirado de lá?


Naquele instante, enquanto meu coração sofria, ouvi alguns passos. Era um jardineiro.


Por alguns instantes, observei seu cuidado com o jardim, a forma como caminhava entre as plantas, a forma como as tocava. Tanto zelo e carinho, tanto cuidado. As plantas e as flores pareciam ganhar mais cores cada vez que Ele as olhava e nelas tocava. Eu lhe perguntei:


- Onde? Onde Ele está?


Ele olhou para mim. Seus olhos fitaram os meus e nele os meus olhos ficaram presos. Ele disse meu nome. Meu coração disparou, encheu-se de um sentimento que eu jamais poderei descrever. Como poderia ser verdade? Como eu conseguia sentir tanto amor em um simples olhar, em um simples sussurrar do meu nome.


Então Ele disse:


- Estou vivo!


Por Isabel Rodrigues

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