Meus olhos móveis


Eu sempre quis observar o mundo inteiro ao meu redor. E que desejo difícil pra quem foi achada pela miopia desde criança. Acompanho há algum tempo os discursos de amor-próprio e me pareciam normais, até meu olho rejeitar completamente minhas lentes de contato. Logo eu, cuja vaidade rejeitava completamente a ideia de usar óculos. Somente pra descansar, somente em casa, raramente saía com eles. Não por achar que era feio, mas porque era mais um peso no meu corpo. Ou, pra ser mais sincera, a ideia de depender de algo pra viver melhor. Mais difícil do que enxergar é se enxergar. Foi o que aconteceu.


Mas, sabe, aprendi que posso me desligar do que quer roubar meu foco a qualquer momento, tirar meus olhos móveis quando roubam a beleza das pessoas e lugares. Não é fugir da realidade, porque eu já a conheço, mais do que isso, estou inserida nela. Mas é entender que sou livre até mesmo na opção de enxergar. Que perspectiva doida. E foi esse óculos que me deu.


Sou acostumada a perguntarem quantos graus uso quando me veem apertando os olhos pra ver melhor; acostumada ao susto das pessoas ao saberem da resposta; acostumada a pedirem pra experimentar meu óculos. Acostumada, por fim, com o adjetivo “cega”, quando sei que o embaçado da visão do que está longe me leva a ver o que está perto. Minha ambição passa a ser o que me cerca por vontade, as pessoas e sonhos, e não mais aquilo que está longe e me tonteia. Não sei se até aqui faz sentido. Mas levo a convicção que minha miopia me aproximou do rosto que amo. E me fez entender que todos nós nascemos espiritualmente míopes, ou seja, nossa tendência é não ter o foco na face do Amado. Mas, docemente somos conduzidos pela sua mão, até aprender o caminho, mesmo sem enxergar totalmente e, ao chegar a um certo ponto, obtemos a perspectiva do céu, onde vemos as coisas desse mundo tão pequenas como quando estamos num avião. Porque, do contrário, um pequeno problema pode ser uma mansão diante de mim. Mas de lá, posso olhar pra baixo e, sem medo de nada, balançar as pernas no ar e contemplar a imensidão.


Por Lara Melo

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