Minha história com a anorexia

Atualizado: 21 de Mai de 2019



Aos meus 12 anos de idade tive que aprender a lidar com uma doença que tinha como principal objetivo bagunçar a minha cabeça. No meu sétimo ano de escola, me encontrei no momento em que me senti mais frágil e suscetível a milhares de coisas. O momento em que eu precisava aprender muitas coisas sobre a vida, mas, ao mesmo tempo, minha capacidade de medir o que era bom e o que era ruim era praticamente nula, eu aceitava o que vinha.


Descobri que existia um ideal de beleza no mundo e eu olhava para outras meninas a minha volta de uma maneira e, para mim mesma, de outra forma complemente diferente e inferior.


O tamanho de roupa que, de fato, era bom para mim na época era o médio, mas eu sempre comprava meus uniformes no tamanho grande, porque era um pavor pensar em usar algo justo que mostrasse que eu não era magra como todas as outras meninas pareciam ser.


O frio pra mim era sempre a melhor época, porque eu podia me esconder debaixo do meu moletom bem maior que eu mesma e me sentir confortável. Porém, quando chegavam os dias de calor, eu me recusava a tirar o casacão (mesmo suando debaixo dele), para não ter que mostrar minhas “gorduras” ou marcas de suor – que, até então, eu achava que suava muito por me achar gorda demais.


Nessa época decidi começar uma dieta e foi nesse momento que todo meu distúrbio começou.


A dieta era terrível! Feria minha mente e feria o meu corpo. Eu achava injusto ter que passar tanta fome, enquanto as outras meninas podiam comer o que quisessem, porque elas não tinham uma genética ou um metabolismo como o meu, elas não engordavam quando comiam as mesmas coisas que eu comia.


Passei a primeira semana da dieta comendo basicamente ovo cozido e salada. As restrições eram tão grandes que eu não consegui completar. Passei então a diminuir drasticamente tudo o que eu comia em todas as refeições, sem procurar valores nutricionais ou buscar saber o que era saudável. Apenas cortei aquilo que eu achava que deveria cortar e aumentei a quantidade de exercícios que eu fazia. Alguns dias, eu me forçava a correr na esteira durante uma hora assistindo o desfile da Victoria’s Secret, pra ter “forças para bater minha meta”. Cada dia mais, eu aumentava a quantidade de exercícios e diminuía a quantidade de comida.


Todos os dias eu observava se meus ossos apareciam mais e a balança era o que equilibrava minha vida e me mantinha focada, porém, ela não me trazia a realidade. Eu não queria apenas ver os meus números diminuindo, queria ver os meus números iguais ao das outras meninas, mesmo que minha genética e altura não fossem as mesmas.


Eu tinha me anulado completamente, não queria ser minha melhor versão, afinal de contas, eu nem sabia quem eu era, importava mesmo se eu era mais parecida com elas ou não.


Com o passar do tempo, minha mente já tinha se acostumado com o pouco de comida que eu ingeria - o que matava cada vez mais minha vontade de comer. Tudo que eu conseguia pensar quando via comida, era o quanto que aquilo me engordaria ou não. Eu me lembro de ir em um rodízio de pizza com alguns amigos para comemorar um aniversário e assistir todos comendo, enquanto eu tomava um refrigerante e eu não dava a mínima. Eu estava condicionada a ignorar minha fome, o meu distúrbio me comandava. Ele mandava em mim.


Passei a comer cada vez menos e aumentar os exercícios cada vez mais, até que meu corpo começou a pedir socorro e começaram os desmaios. As seis horas da manhã, levantei para ir ao banheiro me arrumar para ir à escola e acordei caída no corredor com meus pais e minha irmã desesperados. Eu passava muito mal depois dos desmaios, mas, mesmo assim, eu me recusava a acreditar no que estava acontecendo. Eu não queria acreditar que estava doente. Eu pensava que aquilo era uma besteira de adolescente e que não era digno de ser chamado doença. Doente era quem tinha todos os ossos aparecendo, e não só um outro como eu estava.


Cheguei ao ponto de sentir sono o dia todo, eu não tinha mais força pra fazer nada. Me lembro de que no aniversário de uma das minhas avós, não conseguir sequer levantar da cama. Minha mãe me levou um prato de torta e pediu que eu comesse ou ela me levaria para tomar soro. Esse foi um dos dias mais desesperadores pra mim. Na minha mente doente, se eu comesse eu engordaria e se eu tomasse soro ficaria inchada. As duas opções eram um terror pra mim. Sem acreditar que minha mãe de fato cumpriria o que ela disse, decidi não comer e terminei aquele dia chorando de desespero e me sentindo terrível depois de tomar soro no hospital.


Foi depois desse dia que as coisas começaram a melhorar. De fato, havia entrado em contato com a minha doença e aos poucos fui descobrindo que ela era real. Eu não queria aceitar que aquilo que eu via em filmes e internet estava acontecendo comigo e que era realmente possível alguém emagrecer tanto e se olhar no espelho e não ver nada diferente. Minha mente me enganava toda hora e eu acreditava nas mentiras. Depois disso comecei a ser acompanhada por diferentes tipos de médicos, busquei sim a ajuda de um psicólogo durante um curto período e outros profissionais da área. Durante esse processo, comecei a ir mais fundo em conhecer Jesus e conforme eu O conhecia, eu conhecia a mim mesma.


Ele começou a tomar a atenção dos meus olhos, mente e coração. Comecei a abrir espaço para Ele entrar nesses lugares que eu tinha vergonha e que eu acabava comigo mesma. Ali meu processo estava começando. Não fui curada da noite para o dia, mas à medida que eu O conhecia, eu conhecia o Seu amor por mim e, à medida que eu conhecia o Seu amor por mim, eu percebia que Ele me amava naquele momento, da forma como eu estava. Eu tinha encontros incríveis com Ele e eu ficava pensando “meu Deus, eu não mereço isso! É muito grande, muito bom! Precisa ter algo que eu possa devolver ou fazer para merecer isso, não é possível que isso tudo é assim... de graça!


Eu tinha encontros com Ele e eu só sabia chorar, eu amava Sua companhia, mas não me achava digna de tudo aquilo. Em resposta a isso, Ele me entregava ainda mais. Era chocante.


Foi então, que comecei a descobrir como Ele era bom, como Ele me amava, como Ele me queria e o tanto que eu era desesperadamente importante pra Ele. Descobri que Ele tinha tudo, que Ele era e é tudo, mas que mesmo assim Ele AINDA ansiava incessantemente por mim. Que Ele morreria pra me ter e que, de fato, Ele MORREU por mim.


Quando todas essas coisas foram reveladas a mim pelo próprio Pai, o meu processo começou a mudar e minha história passou a ser escrita.


Descobri que Ele não descartava o que tinha acontecido, pelo contrário, Ele queria que eu usasse isso como uma arma. Era hora de lutar com as mentiras que Satanás tentava imprimir nos Seus amados e que aquilo que um dia tinha sido minha maior fraqueza, agora seria minha maior força. Eu lutaria pela descoberta da minha identidade nEle todos os dias e pela identidade de outros, aqueles que Ele morreu para salvar. O meu processo não parou. Continuo tendo que olhar para Jesus constantemente para nunca me esquecer de quem Ele é e quem Eu sou NELE.


Por fim, quero ressaltar que a anorexia não é bonita. O distúrbio alimentar não é legal. A comparação mata. Não é aceitável e não dá para “abrir exceções”. Nosso Deus é sim justo e bom e os nossos olhos NÃO são os SEUS OLHOS. Nosso padrão de beleza, É NOSSO E NÃO DELE. Ele nunca criou pré requisitos para entrar no seu Reino e muito menos para sermos amadas por Ele. Ele sempre deixou bem claro que são os doentes que precisam de médico, ou seja, são os pecadores imperfeitos que precisam de um Salvador. Só assim vamos aprender a ser como Ele é. Ele sim, é digno de ser nossa inspiração, nosso padrão, nossa meta.


Por Juliane Castro

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