o pai espera à porta

Atualizado: 21 de Ago de 2018




Deixei pedrinhas ao longo do caminho no caso de querer voltar. Acertei. Conheço quem sou, a natureza de filha pródiga, iludida com a felicidade e autoconhecimento que me oferecem às esquinas. Mas também conheço quem sou, criatura Tua, que sabe de onde e por quem veio. Serei audaciosa se pedir que ainda haja amor por mim? No caminho de ida, eu tropecei e machuquei o joelho; agora sou ferida aberta, vulnerável.


Olhei e vi, assustada, quão comprido era o rastro das pedrinhas. Quão distante eu fui? Será que posso voltar? “Jesus, por onde eu andei?!”, grito como desesperada. Foram caminhos assustadores, escuros e perigosos. Meu coração batia na garganta de pavor por saber que estava me distanciando cada vez mais. Estou cansada de andar só. Parei de enxergar tuas pegadas há certo tempo. Você ainda está aqui? Pode me ver, tão pequena e exausta diante de ti?


Será que vai me querer assim tão suja, maltrapilha e sem brilho? Tão diferente de como quando tu me deixaste ali, no começo. Lembro do marejado em teus olhos por me ver partir. Eu traí você, o machuquei e o humilhei. O castigo foi todo sobre Ti. Será que pode me perdoar? Desrespeitei teu sacrifício e esqueci que tu me criaste para ser. Estou cansada de lutar. Seja em mim! Sei que fui tola, mimada e ingrata, porém também sei que terás misericórdia. Quero ser em ti, viver em ti noite e dia, na multidão e na solidão do quarto, nos tambores e no rasgar das vestes.


O caminho que segui ainda tinha uma vasta e larga estrada para ser seguida. O poço ainda ficaria tão mais fundo. No entanto, vi o meu reflexo e não te reconheci em mim e nem ao meu lado. Senti-me suja e infeliz. Não havia mais prazer e alegria ou paz. Passou, passageira. Não havia mais nada. Senti-me oca, infrutífera. Mas as pedrinhas estavam ali; eu marquei o caminho de volta.


Rastejei por boa parte dele. Ardeu, porém continuei. Seria você capaz de deixar as noventa e nove por mim outra vez? Mandaria trazer as roupas e os anéis? Choraria comigo nos braços? Sararia as minhas feridas? Mais tola ainda fui eu por duvidar. Tu sabes bem a tua essência. Um pai que não recrimina, não debocha, não faz por fazer. Você me deixou ir e esperou o meu retorno à porta. Você me desejou de volta.


Não por mim, mas por quem você é. Não pelo que posso fazer, mas pelas provas do que as tuas mãos providenciam. Não pelo que eu digo, mas pelo que a tua promessa sustenta. “Quero ser em ti”, supliquei sem voz e te ouvi decidir: primeiro curará o coração e o sangue que sair dele sarará a minha alma. Não quero minha parte da herança em ouro ou bens, quero o teu amor. Eu voltei, paizinho, porque eu não quero ser mais sozinha. Eu conheço bem quem sou: tua. E viverei por ti, sarada e redimida.


Por Mariah Costa


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