que homem é esse

Por Lara Melo


Em meu guarda-roupa não há nada que agrade todos ao meu redor. Minha forma de andar, a postura ao sentar, minha cabeça baixa ou distraída em algum lugar, nada me livra dos comentários. Sou alvo de ofensa, sou apelidada de lado fraco por ser forte pra suportar tamanhas humilhações.

Uma vez eu chorei de fome e me falaram que mulher que sabe cozinhar não passa por isso. Uma vez eu me desfiz das roupas que não me cabiam mais e me falaram que minhas medidas estavam extremas. Uma vez eu fui caminhar e me falaram que meu short era muito curto. Uma vez eu saí com amigas e me falaram que eu saia demais. Uma vez eu conversei com um amigo e falaram que eu só me aproximava de homens. Uma vez eu fiquei sozinha e me nomearam de estranha. Uma vez fui à igreja e me falaram que meu vestido deveria ser maior. “Uma vez” se repetiu tantas vezes até que, uma única vez, ouvi falar de um homem cuja presença fazia todos perderem a razão e as defesas eram desfeitas.

Que homem é esse?

É o maior questionamento que paira sobre as mentes a respeito do desconhecido. Entrei onde todos estavam ao seu redor em bajulação; acostumada com as análises oculares em todo lugar, ele não examinou o que eu vestia e sequer encarou as marcas em meu corpo. Pela primeira vez, olhos fitavam diretamente os meus. Naquele momento, dei-me como a forma de limpar os pés mais puros, com minhas lágrimas cansadas; meus cabelos, julgados como o símbolo que me fazia mulher, ali só serviam para uma coisa: tocá-lo.

Sempre vão sussurrar. Não foi diferente ao beijar seus pés. “Que mulher é essa?”

Ele me justificou enquanto eu estava jogada no chão, perdida, mas dessa vez, de amor. Eu sequer disse uma palavra. Sua voz suave ecoou sobre os cantos, dizendo que eu havia sido alcançada pelo perdão.

Outra vez, o caos atravessava todo o lugar: “que homem é esse que perdoa até pecados?”. Pra ser sincera, nem eu acreditei em sua ousadia. Mas ele não era somente um homem que fugia do comum, ele fugia da indiferença.

Enquanto todos faziam essa pergunta que eu havia acabado de ser respondida, tive certeza que o meu lugar nunca foi no alto de uma torre, onde todos pudessem me conhecer, mas aos pés de quem se inclinava por mim.

Uma fé tão pequena em mim foi capaz de me conduzir à esperança, para seguir a vida o encontrando com o eterno convite em seus lábios: “seja bem-vinda, filha, pode se jogar aos meus pés”.

Assim, vou em paz.

Inspired by Lucas 7:36-50




Ilustra por Sara Sousa

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